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    April 29

    De forno e fogão

    Minhas virtudes culinárias são pra lá de conhecidas pela família. Além de não levar muito jeito pra coisa também não tenho o menor interesse em me especializar.

    Vai que ontem resolvi surpreender meu esposo com um delicioso pudim de leite e você que já está aí rindo às bandeiras despregadas já antevendo o meu fracasso, acertou. Claro que só poderia sair uma droga.

    Pois que botei os ingredientes tintim por tintim dentro da tal forma própria pra fazer pudim, botei um copo dágua no recipiente que vai embaixo, coloquei o pudim na forma e a desgraçada por cima. E fui tranquilamente navegar na internet enquanto a poção dos infernos ficava pronta.

    E não é que o raio da forma tinha que ficar cheio de água? Essa eu não sabia, dali nem vinte minutos meu filho vem aqui me informar que tem uma fumaceira saindo da panela. Largo à contragosto o pc onde navegava tranquila por estas páginas maravilhosas e me abalo até a cozinha.

    O pudim secou, grudou na forma. Tento tirá-lo de lá e o maldito não quer sair de jeito nenhum. Depois de manobras pra lá de arriscadas (visto que a forma está pelando) ele finalmente abandona o local onde pensei que teríamos que comê-lo, uma vez que se recusava a abandoná-lo.

    Quando olho minha "obra", fico decepcionada. Parece um sapo grande, com as 4 pernas arriadas, esborrachado no prato. O gosto até que ficou passável.

    Quando meu marido chegou, servi-lhe a porcaria e ele comeu à custa de ameaças:

    - Se reclamar ou fizer qualquer gracinha a respeito da aparência eu nunca mais tento fazer nada. Vai passar a pão e água.

    Ele comeu, compenetrado, vez por outra cutucando a meleca doce com que o presenteei com uma colher, em outras levantando-a e olhando por baixo com ar curioso. Mas comeu CA-LA-DO.

    (zailda mendes)

    April 06

    Maradona

    Ele era um gato lindo, branco, mestiço angorá. E tinha personalidade, como todos os gatos. Exigia atenção e carinhos e quando eu me distraía escrevendo cartas subia em cima da mesa e andava por cima delas, passando a ponta da cauda no meu rosto e ronronando. Costumava pisar na almofada de carimbo que eu usava e andava por cima do meu papel de carta, de forma que ficavam todas "assinadas" por ele.

    Ele era muito grande e gordo, lindos olhos azuis, me venerava e com certeza foi o bicho com que mais me apeguei até hoje. Uma vez ele sumiu, coisa que não era comum porque ele sempre vinha pra casa quando ouvia minha voz e não dormia do lado de fora. Procurei por dias e nada. Eu me deitava à noite e ficava imaginando-o miando, me chamando, sem água, sem ração, talvez sofrendo maus tratos.

    Tive que viajar a serviço e fiquei uns dias fora, todas as noites ligava em casa para saber se estava tudo bem com ele e as crianças e sempre perguntava se o Maradona não tinha aparecido. Nada.

    Mas no dia que voltei, qual não foi minha surpresa, ele havia voltado! Ele miava de alegria e logo pulou no meu colo, esfregando o focinho em meu rosto. Depois se enrolou aos pés da minha cama e dormiu ronronando.

    Mas há gente cruel nesse mundo. Algumas semanas depois ele desapareceu de novo, e dessa vez algo me dizia que era para sempre. No segundo dia eu descobri um enxame de moscas no telhado de casa, e ao procurar no forro da casa o encontraram. Fora um vizinho que estava matando muitos gatos da vizinhança, colocando veneno de rato em cabeças de peixe e deixando-as em um terreno que tinha perto de casa.

    Eu fiquei furiosa, chamei a polícia, xinguei o vizinho, botei até um artigo no jornal da cidade demonstrando a minha indignação. Nada disso trouxe o Maradona de volta, mas pelo menos os gatos pararam de morrer, acho que o vizinho ficou com medo.

    Foi um triste fim para um gato que sempre foi tão terno e carinhoso, tão caseiro e brincalhão. Mas infelizmente assim é a vida. Quando adotamos nossos bichinhos temos consciência de que provávelmente viveremos mais que eles e não é fácil saber que morreram sofrendo e que nada pudemos fazer para ajudá-los.

    (zailda mendes)