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日志


3月11日

Duas fábulas e uma conclusão

A cobra

A mulher encontrou uma cobra enregelada, quase morrendo de frio na neve. Compadecida, abrigou-a no seio. No calor de seu seio, a cobra aos poucos foi se recobrando, mas tão logo sentiu-se forte o suficiente, picou o seio da mulher. A mulher, já morrendo e espantada com tamanha ingratidão, pergunta:

- Salvei tua vida, por que me picaste?

- Sim, salvastes minha vida - responde a cobra, afastando-se - mas sabias que eu era uma cobra.

O escorpião e a tartaruga

Houve uma enchente na mata e as águas fortes da chuva arrastaram muitos bichos para o rio, que transbordara. Nele caíram também o escorpião e a tartaruga. O escorpião não sabia nadar e pediu à tartaruga uma carona em seu casco.

A tartaruga nadava com dificuldade contra a correnteza e já estavam quase chegando à margem, quando sente uma ferroada. Começa a perder forças e grita, já se deixando levar pelas águas:

- Por que me ferroaste? Agora vamos morrer os dois.

- Não pude fazer nada - responde o escorpião - é a minha natureza.

Conclusão

Concluo que as pessoas que não tem escrúpulos, valores, caráter, nunca deixarão de nos picar como a cobra, por mais que as ajudemos. São cobras, e a exemplo do escorpião, pouco podemos fazer, pois esta é sua natureza.

Não abriguemos, pois, cobras em nosso seio e nem vamos carregar escorpiões nas costas. Melhor nos afastarmos de pessoas assim, pois sempre se voltam contra aqueles que estão próximos.

Não se trata de virar as costas e não ter caridade. Caridade devemos usar com quem a mereça. As desgraças que acontecem com cobras e escorpiões são apenas o resultado de suas próprias maldades.

Devemos perdoar suas picadas, ferroadas, e extrair de seu veneno o ensinamento: "não dê pérolas aos porcos; eles não sabem o que fazer com elas."

(escrito por Zailda Mendes)

Essa foi por um triz

Quando eu estudava na Universidade Metodista tinha que tomar um ônibus até o Paço Municipal de São Bernardo e então um outro até Diadema, onde eu morava. Como era à noite, às vezes ficava complicado pra tomar o ônibus porque eu não via muito bem o letreiro.

Numa noite dessas em que o ônibus estava demorando muito eu me sentei debaixo de uma guarita e uma senhora muito simpática e tagarela começou a puxar prosa. Eu ouvia e abanava a cabeça, que ia longe com meus próprios pensamentos, enquanto vigiava pra ver se meu ônibus não chegava.

Num desses momentos eis que chegam logo 3 de uma vez, e de onde eu estava não via muito bem, então me levantei e dei uns passos até o meio-fio pra ver melhor, dando aquela espichada básica de pescoço pra enxergar à noite e ainda por cima o astigmatismo atrapalhando.

Estou naquele exercício de estica pescoço, franze testa, pisca forte, quando ouço um baque forte bem atrás de mim. Pra minha surpresa a guarita sob a qual segundos antes eu ouvia a simpática velhinha tagarela falar pelos cotovelos agora está que é um escombro só. Toda detonada, vejo apenas entre as pedras uma alça da sacola que a falante senhora segurava. E um sinistro fio de sangue escorre na calçada.

Correria, gritaria, a mente confusa demora uns minutos a entender o que se passara: alguém em desespero pulara de uma das janelas do prédio em frente à calçada onde estávamos, e no seu pulo pra outra vida, inadvertidamente levara consigo a distinta senhora que agora com certeza estaria levando uma animada prosa com São Pedro.

- Não sei, meu filho. Eu estava lá esperando o ônibus, de repente "tchibum"  e agora estou aqui...

No fim das contas, era o meu ônibus mesmo, entrei meio cabisbaixa e na minha mente iam coisas estranhas, como os mistérios da vida e em como o fato de não usar óculos (e portanto não enxergar direito) poderia ter - quem sabe? - me concedido alguns anos a mais por aqui.

(zailda mendes)

3月8日

Como foi que eu morri

Segundo meu marido, que é um bom observador, foi mais ou menos assim:

Eu estava em casa num domingo, blogando frenéticamente como sempre, em meus mais de 40 blogs espalhados pela internet quando senti a primeira pontada. Uma pontada forte, dor aguda e profunda do lado esquerdo, que me paralisou a respiração por instantes.

Ele bem que queria me levar ao médico e insistiu muito nisso, quase me tirou da frente do computador à força mas acabou por respeitar meus argumentos:

- Calma amor. Daqui a pouco eu vou. Deixa apenas eu acabar esse post aqui, já estou terminando.

Isso foi lá pela uma da tarde, depois do almoço naquele dia quente e abafado. Eu suava frio na frente do computador e meus dedos martelavam febrilmente o teclado e vez por outra eu me interrompia por alguns minutos para massagear o braço esquerdo que sentia já adormecido.

A segunda pontada forte veio lá pelas 4 da tarde e foi um custo convencer meu marido de que não era nada grave, que o fato de meu suor ser agora gelado e minha boca estar arroxeando não significava absolutamente nada, era só um sinal de desidratação fácilmente contornável.

E foi assim que continuei a blogar, a garrafinha de água mineral do lado, meus olhos já embaralhando as letras, a mão trêmula e o braço esquerdo já totalmente adormecido. De minha testa escorria uma fina linha de suor e eu ofegava. No início da noite veio finalmente o ataque fatal e meu coração se contraiu como se uma potente garra o espremesse com todas as suas forças e meu corpo não mais suportando a dor caiu da cadeira.

Eu já no chão, meu marido tentando me socorrer, a mão direita ainda tateava o teclado em busca do mouse, enquanto eu sussurrava, já sem forças:

- Por favor, espere que tenho que dar um "enter" para salvar o que eu fiz.

Mas o ataque mortal levou-me a vida antes que eu pudesse publicar o que estivera escrevendo a tarde toda, e por isso meu espírito agora vaga entre o céu e a terra, desassossegado. Se pelo menos eu tivesse tido tempo de dar "enter"...

(zailda mendes)